Músculos que não relaxam, passos que custam o dobro de esforço, crianças que andam na ponta dos pés porque os músculos da panturrilha não permitem o apoio do calcanhar: esse é o cotidiano de quem vive com espasticidade grave, e a cirurgia para espasticidade chamada Rizotomia Dorsal Seletiva é, em muitos desses casos, o tratamento que muda esse cenário.
Neste artigo, compreenda como funciona essa cirurgia, quem são os candidatos ideais, o que acontece durante o procedimento e o que o paciente e a família podem esperar ao longo da recuperação.
A espasticidade é o resultado de uma lesão no sistema nervoso central que interrompe os circuitos inibitórios responsáveis por regular o tônus muscular. Sem esse freio, as fibras nervosas sensitivas que chegam à medula espinhal disparam sinais excessivos que ativam os músculos de forma contínua e exagerada.
É esse excesso de ativação reflexa que produz a rigidez característica, a resistência ao movimento e os padrões motores alterados que comprometem a marcha, a postura e a função dos membros.
A Rizotomia Dorsal Seletiva é uma cirurgia realizada na coluna que age diretamente nesse mecanismo. Ela consiste na secção parcial e permanente de algumas raízes nervosas dorsais, ou seja, as fibras nervosas sensitivas que chegam à medula e que, nesses pacientes, estão transmitindo sinais anormalmente exacerbados.
Ao reduzir seletivamente esse excesso de input sensorial, a cirurgia diminui a hiperatividade reflexa do músculo sem comprometer a força motora, oferecendo uma redução da espasticidade, quando os medicamentos orais não são efetivos.
A indicação da Rizotomia Dorsal Seletiva é criteriosa e baseada em uma avaliação multidisciplinar que envolve neurocirurgião, neurologista, fisioterapeuta e, quando necessário, ortopedista. A condição para a qual o procedimento tem maior respaldo científico é a paralisia cerebral do tipo diplégico espástico, em que a espasticidade compromete predominantemente os membros inferiores de forma bilateral e o paciente tem potencial de marcha preservado ou a recuperar.
Os critérios que orientam a seleção dos candidatos incluem:
Em adultos, a rizotomia pode ser considerada em casos selecionados de espasticidade por sequela de AVC, lesão medular ou esclerose múltipla, com avaliação ainda mais criteriosa, pois nesses pacientes a espasticidade pode estar cumprindo um papel funcional de sustentação que a cirurgia eliminaria junto com o excesso de tônus.
Antes da cirurgia, o paciente passa por uma avaliação funcional detalhada que inclui análise quantitativa da marcha em laboratório, quando disponível, avaliação da espasticidade pelas escalas clínicas validadas como a Escala de Ashworth Modificada, exame de força muscular segmentar e avaliação de imagem da medula espinhal para planejamento cirúrgico. Essa etapa é fundamental para definir quais níveis medulares serão abordados durante a cirurgia e para estabelecer os objetivos funcionais realistas do tratamento.
A Rizotomia Dorsal Seletiva é realizada sob anestesia geral, com o paciente em decúbito ventral. O neurocirurgião acessa a região lombar da coluna por uma pequena incisão, abre o canal vertebral e identifica as raízes nervosas que serão seccionadas.
O momento mais crítico e tecnicamente exigente do procedimento é a estimulação elétrica individualizada de cada radicula, realizada com o auxílio de monitoramento eletrofisiológico intraoperatório. Essa estimulação gera uma resposta muscular que é avaliada em tempo real pela equipe de neurofisiologia: radiculas com resposta anormal e exacerbada, que são justamente as que alimentam o circuito de espasticidade, são seccionadas, enquanto as que apresentam resposta normal são preservadas. Essa seletividade é o que diferencia a rizotomia de uma intervenção mais ampla e é o que permite reduzir a espasticidade sem sacrificar a função sensorial ou motora de forma indiscriminada.
Um aspecto que precisa ser comunicado com clareza para o paciente e a família é que a cirurgia é o começo do processo, não o seu desfecho. A Rizotomia Dorsal Seletiva elimina o excesso de espasticidade, mas os padrões motores que o paciente aprendeu ao longo de anos de desenvolvimento precisam ser reconstruídos com o suporte da fisioterapia intensiva. Sem reabilitação adequada após o procedimento, os ganhos cirúrgicos são subutilizados.
O protocolo de reabilitação após a rizotomia inclui fisioterapia intensiva com início precoce ainda durante a internação, com continuidade por um período de seis meses a um ano após a cirurgia. Os objetivos dessa fase incluem o fortalecimento muscular nos membros que agora têm menor tônus, o reaprendizado dos padrões de marcha mais eficientes, o ganho de amplitude de movimento nas articulações e a consolidação das novas possibilidades funcionais que a redução da espasticidade abriu. Os resultados descritos na literatura mostram melhora significativa na qualidade da marcha, redução da necessidade de órteses, menor demanda de cirurgias ortopédicas futuras e ganho mensurável de função motora grossa em crianças selecionadas adequadamente.
A Rizotomia Dorsal Seletiva é a cirurgia para espasticidade com maior respaldo científico disponível para pacientes com paralisia cerebral diplégica espástica e potencial de marcha, oferecendo redução permanente da rigidez muscular por meio de um procedimento tecnicamente preciso e bem estabelecido na neurocirurgia funcional. A seleção criteriosa do candidato, a qualidade técnica do procedimento e o compromisso com a reabilitação pós-operatória são os três pilares que definem o quanto essa cirurgia transforma a qualidade de vida do paciente.
Se você tem um filho com paralisia cerebral e espasticidade que compromete a marcha, ou se convive com espasticidade grave por outra causa neurológica e quer entender se a cirurgia é uma opção para o seu caso, podemos realizar essa avaliação com rigor e transparência, apresentando os reais benefícios, as limitações e o caminho completo do tratamento.
Última data de revisão: sexta, 23 de outubro de 2026